Left Right

de ASHER SWISSA

O sábado pairava
O tempo preso no ar
Como se a história
Tivesse esquecido de passar

Esqueceu de contar
Os anos em que procurei
Um amigo em cada irmão
Um sinal de vida em cada olhar

Esqueceu de medir
A dor que não fecha
O silêncio dos que andam
Por desertos sem promessa
Desertos do desamor
Da indiferença
Da espera

Mas ouvi Teus passos
No fundo do escuro
No silêncio mais antigo
Tua voz me chamou pelo nome
Não gritou
Sussurrou
E o tempo se rasgou
Homem morto, acorde
Vem viver

Sábado em silêncio
Por certo, Ele morreu
Mas desde quando houve
Impossível para Deus?

A dor da sexta-feira
Ainda mancha o chão
Mas Tu caminhas comigo
No vale da sombra
E a última palavra é Tua

Homem morto, acorde
Vem para fora
Este é o som
Que nasce no vale profundo
Um canto baixo
Que venceu a morte e o mundo

Rola a pedra
O medo cede
As feridas respiram
Ele sopra
E o peito entende
Vem viver
Vem viver

Este é o som
Que devolve o fôlego aos ossos
Abram a cova
Eu vou sair
Eu vou viver
Para Deus

Ainda que na figueira
Não floresça o amanhã
E o vinho perca o gosto
Da festa que sonhei

Tua mesa me espera
No chão da escassez
Tu unges minha fronte
Onde só havia talvez

Pois onde piso
Tu fazes chão
Onde eu caio
Tu fazes pão

Teu cajado me encontra
Quando eu não sei voltar
Meu peito aprende o caminho
Dos pastos
Onde a alma pode deitar
Mesmo no escuro
Teu bem me alcança
E minha alegria
Aprende o ritmo
Da esperança

Abram a cova
Eu vou sair
Eu vou viver
Eu vou viver para Deus

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